{"id":195,"date":"2018-10-22T10:25:46","date_gmt":"2018-10-22T12:25:46","guid":{"rendered":"http:\/\/sousurdosim.com.br\/?page_id=195"},"modified":"2018-10-22T16:55:52","modified_gmt":"2018-10-22T18:55:52","slug":"o-antes-da-surdez","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/sousurdosim.com.br\/index.php\/a-surdez\/o-antes-da-surdez\/","title":{"rendered":"O antes da surdez"},"content":{"rendered":"<p><strong>O ANTES DA SURDEZ<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Falar sobre o antes de ficar surdo, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil para mim pois, sou temeroso em fazer transparecer algum ju\u00edzo de valor entre ser ou n\u00e3o ouvinte. Por esse motivo, deixo claro que meu discurso em todo o site \u00e9 desprovido de qualquer que seja esta inten\u00e7\u00e3o. Mas falarei sobre este assunto, pois eu sim, como j\u00e1 tive audi\u00e7\u00e3o, posso dizer que a perdi. Eu tenho a no\u00e7\u00e3o da perda. Porque s\u00f3 se perde aquilo que um dia voc\u00ea o teve. Se pararmos para refletir sobre isso que acabei de vos dizer, surdos cong\u00eanitos e, embora s\u00f3 tenham perdido a audi\u00e7\u00e3o na inf\u00e2ncia no in\u00edcio da aquisi\u00e7\u00e3o de sua linguagem ou mesmo antes, estes, como supostamente n\u00e3o tiveram a audi\u00e7\u00e3o ou o uso reflexivo dela, eles n\u00e3o t\u00eam no\u00e7\u00e3o da perda.<\/p>\n<p>Para melhor enfatizar o que acabo de vos dizer, apresento um relato sobre esta quest\u00e3o. \u00c9 muito importante que voc\u00ea leitor deste site leia realmente para melhor entender:<\/p>\n<p>Padden e Humphies (1999) comentam um bel\u00edssimo relato, feito por Sam, um menino surdo, em seu contato com uma amiga ouvinte, que morava num apartamento ao lado do dele. Vejamos o relato abaixo.<\/p>\n<p>Sam nasceu numa Fam\u00edlia Surda, com muitos irm\u00e3os surdos mais velhos que ele e, por isso, demorou a sentir a falta de amigos. Quando ele come\u00e7ou a se interessar pela realidade fora do seu mundo familiar, notou, no apartamento ao lado, uma garotinha que tinha idade mais ou menos igual \u00e0 dele. Ap\u00f3s algum tempo, ficaram amigos. Ela era legal, mas tinha um problema: ele n\u00e3o conseguia conversar com ela como conversava com seus pais e irm\u00e3os mais velhos. Ela tinha dificuldade de entender at\u00e9 gestos muito simples! Como Sam e a menina n\u00e3o conseguiam se comunicar, ele come\u00e7ou a apontar para o que queria ou, simplesmente, puxava a amiga para onde ele queria ir. Ele imaginava como deveria ser ruim para a amiga n\u00e3o conseguir se comunicar, mas, uma vez que eles descobriram uma forma de interagir, ele estava contente em se acomodar \u00e0s necessidades diferenciadas da amiga.<\/p>\n<p>Um dia, a m\u00e3e da menina se aproximou e mexeu os l\u00e1bios e, como m\u00e1gica, a menina pegou sua casa de boneca e se afastou para outro lado. Sam ficou espantado e foi para casa perguntar a sua m\u00e3e sobre qual era exatamente o tipo de problema da vizinha. A m\u00e3e de Sam lhe explicou que a amiga dele, bem como a m\u00e3e dela, eram ouvintes e, por isso, n\u00e3o sabiam sinais. Elas falavam, mexiam seus l\u00e1bios para se comunicar com os outros. Sam perguntou se somente a amiga e a m\u00e3e dela eram assim, e sua m\u00e3e lhe explicou que era a fam\u00edlia deles que era especial, e n\u00e3o a fam\u00edlia da amiga. As outras pessoas eram como sua amiga e a m\u00e3e dela. Sam n\u00e3o possu\u00eda a sensa\u00e7\u00e3o de perda auditiva. Ele pensava que eram os vizinhos que tinham uma perda, uma falta de habilidade para se comunicar, e n\u00e3o ele e sua fam\u00edlia.<em> [Adaptado de]: SALLES, Heloisa et al. Ensino de l\u00edngua portuguesa para surdos: caminhos para a pr\u00e1tica pedag\u00f3gica. Vol. 2. Bras\u00edlia: MEC, SEESP, 2004. p. 36-38.<\/em><\/p>\n<p>Agora me sinto mais \u00e0 vontade em prosseguir meus relatos sobre \u201co antes da surdez\u201d. Como na aba anterior citei sobre as quest\u00f5es de minha vida, tive in\u00fameras oportunidades que fizeram alargar o repert\u00f3rio da minha linguagem. Antes de ficar surdo, era somente a l\u00edngua portuguesa que eu usava para me comunicar. Sempre fui um \u00f3timo aluno da disciplina portugu\u00eas, tinha facilidade em compreender e dominar o uso culto e coloquial da l\u00edngua e, como antes mencionado, alarguei meu repert\u00f3rio. Tive oportunidade tamb\u00e9m de conhecer outras l\u00ednguas como o ingl\u00eas, espanhol, franc\u00eas e at\u00e9 mesmo a Libras, mas claro, somente um conhecimento superficial, sem me ater a maiores aquisi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Antes de perder a audi\u00e7\u00e3o eu j\u00e1 havia conquistado autonomia em todas as circunst\u00e2ncias, porque eu nunca fui podado. Meus pais desde cedo me impulsionaram a ir em busca daquilo que eu sonhava. Passei por todas as etapas: estudei bastante, como ainda estudo, era aprovado, j\u00e1 cheguei a ser reprovado, jogava bola, viajava a passeio, a trabalho, namorava, levava \u201cfora\u201d, fiquei noivo, me formei, passei em concurso, comprei meu transporte, tirei minha CNH, era religioso ao extremo e servia num grupo de canto, depois fui coordenador e vocalista de uma banda cat\u00f3lica, compositor (veja uma de minhas composi\u00e7\u00f5es:<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=RYx_ilhFRCE&amp;t=148s\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=RYx_ilhFRCE&amp;t=148s<\/a> ) poeta, at\u00e9 teatro eu cheguei a fazer.<\/p>\n<p>Percebam que tudo o que acabei de relatar foi a vida sem limita\u00e7\u00f5es que um ouvinte poderia ter. Eu sempre fui encorajado a d\u00e1 o melhor de mim. A me sobressair. Mas quando eu fiquei surdo, at\u00e9 mesmo antes de perder completamente a audi\u00e7\u00e3o, minha vida mudou, (estou contando o que aconteceu, n\u00e3o o agora) eu fiquei completamente triste, tive in\u00edcio de depress\u00e3o. Mas porqu\u00ea? O motivo era somente este, porque o Michel Oliveira, laureado como o melhor aluno da faculdade no curso de Pedagogia, embora tendo cursado duas disciplinas voltadas para estas quest\u00f5es, eu n\u00e3o entendia nada sobre surdez. Para mim, naquele instante, ficar surdo era est\u00e1 fadado ao fracasso, eu falhei na vida, eu n\u00e3o poderia mais fazer nada, nem casar, nem andar sozinho, nem trabalhar, nem viajar. Era s\u00f3 esperar a morte chegar. Percebam pessoal, assim como eu, in\u00fameros pais de surdos veem seus filhos da mesma forma ou quase igual. Por excesso de amor, por n\u00e3o querer ver seu filho sofrer, pais v\u00eam podando seus filhos, cortando suas asas. Eu, aquele garoto (que era ouvinte) criado acreditando em si, tive in\u00fameras conquistas. Mas e se eu tivesse nascido surdo, ser\u00e1 que meus pais teriam me mostrado que eu posso tudo?<\/p>\n<p>O fato foi que quando perdi minha audi\u00e7\u00e3o, minha fam\u00edlia n\u00e3o me via mais como aquele garoto vitorioso e cheio de vida. Tamb\u00e9m por excesso de amor, agora eu n\u00e3o podia mais nada. Foi assim que eles come\u00e7aram a me ver, por conta de estar surdo e assim tamb\u00e9m eu me sentia, por mim e por eles me fazerem sentir. Percebam que conversarmos sobre o antes da surdez faz todo o sentido. Tem muito mais a ser relatado, agora ser\u00e1 sobre o in\u00edcio, o descobrindo a surdez, vou falar do diagn\u00f3stico e de todas as quest\u00f5es entorno deste in\u00edcio. Sobre isso, cliquem na pr\u00f3xima aba chamada \u201cDescobrindo a surdez (diagn\u00f3stico)\u201d Espero voc\u00eas l\u00e1, abra\u00e7o!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ANTES DA SURDEZ &nbsp; Falar sobre o antes de ficar surdo, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil para mim pois, sou temeroso em fazer transparecer algum ju\u00edzo de valor entre ser ou n\u00e3o ouvinte. Por esse motivo, deixo claro que meu discurso em todo o site \u00e9 desprovido de qualquer que seja esta inten\u00e7\u00e3o. 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